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Certas memórias surgem como paixão dos dias quentes, a voz do poeta miúdo garganteando versos calculados vezes-sem-conta, lá no Instituto Cultural Moçambique-Alemanha, e depois o abraço rouco de gim, do pintor que apanhava bolas de ténis. Paixões, tão insóbrias como a eternidade, como pedaços de poesias emolduradas que ficarão para sempre na retina dos nervos. Hoje vi a minha primeira paixão pequiniana, fortuitamente, uma criatura bela, de olhos nimbados de ingenuidade e de um brilho que me lembra bolhas de sabão. Ela arrebatou-me da solidão, com arrojo, enricou a minha escuridão e ofereceu-me mil e uma noites de altar, sob o canto de amor oriental.

Tê-la visto fez-me revivescer outras paixões, outras chamas, de longe e de perto, de estações diferentes, de nomes e expressões diferentes. Sinto o relógio correr, a única inércia que se nota não chega a ser suprema, uma vida pode ser vivida em um ano, a inércia, essa é fácil de emudecer, prometemo-nos visitas, convites de matrimónio, passeios de degustação, mas no fundo sabemos que as nossas almas não têm armaduras fiáveis contra as armas dos vínculos humanos.  Tê-la visto excitou em mim uma questão, Terei sido feliz, em Pequim? Sim, conheci-me em Pequim, camonizei-me, fiz amigos de grande admiração, lá do outro lado do Atlântico, acumulei riquezas espirituais e ganhei mais um olho, que vê o mundo como uma imagem de fertilidade, além da poesia.

Lá se foi o meu apetite, o calor esgota-me e confundo o aroma da comida, o sabor da liberdade e a potência da luz amarela que jaz sobre a escrivaninha. Uso a dor de cabeça como subterfúgio, as aspirinas chinesas não produzem milagre nenhum, refugos de uma vontade dominada, predisposta a ajudar, mas sem vontade alguma. ‘Tem criança que acredita em mágico’, que é isso, Escobar? E acreditar no amor, não é a mesma coisa? Aquele amor ignoto, do teclado, sem voz, sem olhares, sem sorrisos não estáticos… Tenho várias paixões, uma rainha-mãe que me descobre querido, uma magrela que se fixou na nossa desarmonia poética, uma ex-aluna com covinhas nas bochechas, uma alma gentil, um amor guardado no fundo-do-coração e uma raridade que me desafia, que se demora no banho e perfuma-se antes de pousar os dedos na tela, pois conversar comigo causa-lhe alegrasmo.

Nem todas as paixões são doces de viver, algumas causam medo, destroem, acusam, empunham armas e tiroteiam… Tem criança que acredita em futuro, Moçambique, futuro risonho, como sonho.

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