Sinto uma saudade futura da cidade imperial, uma nostalgia desgostosa que me engasga os vasos sanguíneos, que faz dos meus lamentos um pecado contra os meus mandamentos: Jamais abandonarás a família e a pátria! Tenho malas por fazer, calçados e vestuário por separar, e livros, fontenárias de erudição e ócio que terei de iludir o interesse, módicas mas insubmissas opulências que os meus olhos elefantinos não pretendem parar de fotografar, refotografar – sépias de um ano de vida experimentado com cores e contraste forjados.

É mestiço, esse sentimento, uma mistela, falta-me um sopro de coragem para reconsiderar, entretanto os olhos embaciados da Zambda, duas janelas madrugadoras com fios de cacimbo, e a sua voz aparelhada para fugir à dor fazem-me conhecer o vazio que deixarei. Ela tenta encobrir os óculos com o longo cabelo, esconde também o sorriso, eu amaldiçoo essa insustentável leveza do ser, ela compreende.

Até quando, Pedro?

Eu sorrio, responder-lhe é uma punição.

– Levas muitos presentes…, para os teus irmãos e parentes?

– Poucos, disse eu, não deu para comprar muito.

Zambda ruboriza-se, um vermelho invade a sua face. Ela finalmente me fita nos olhos, toca as minhas mãos e diz numa voz que oiço pela última vez, softly:

– Pedro Pereira Lopes… I am in love. In love. I am.

Apetece-me chorar, mas eu não costumo chorar, eu luto… lutar não é preciso, agora.

Fade to black:

Fim

 

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